Mulheres conquistam mercado cervejeiro, da gestão à produção

Data: 13/06/2019
Fonte: Meio Norte-PI


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Em tempos de conquistas dos muitos espaços antes considerados exclusivamente masculinos – ou quase –, as brasileiras da cerveja têm indo além, extrapolando as fronteiras e recebendo o merecido reconhecimento. Assim, a participação feminina no mercado cervejeiro cresce muito rápido e nas mais diferentes áreas: brassagem, qualidade, manutenção, logística, financeiro, adega, marketing, sommelières, juradas em concursos nacionais e internacionais, empreendedoras e também na liderança em muitas cervejarias.

A evolução

“É muito bom ver essa abertura cada vez maior maior para mulheres no mercado, coisa que há poucos anos atrás não era tão comum. Claro que ainda é um universo predominantemente masculino, e que, como em qualquer mercado e qualquer lugar, infelizmente o preconceito e o machismo ainda estão presentes, mesmo que disfarçados de “brincadeiras” ou “piadinhas””, comenta Fernanda Ueno, cervejeira da JAPAS.

A marca é tocada por ela, Mai´ra Kimura e Yumi Shimada, três profissionais do mercado cervejeiro que se uniram pelas suas semelhanc¸as: 3 mulheres nipo-descendentes com a ideia de manter e buscar suas pro´prias origens a cada criac¸a~o, ale´m de mostrar que mulheres podem e devem se destacar em todos os ambientes, mesmo aqueles que geralmente sa~o considerados masculinos.

Ainda que exista gente que pense que existe algo como “bebida de mulher” ou que restrinja nosso paladar ao sabor doce, muitas mulheres estão aqui para mostrar que não trabalhamos com limites. E essa mudança vai acontecendo diariamente, tanto com profissionais da área quanto como consumidoras.

“Quando comecei a fazer cerveja era testada a cada minuto. Sempre tinha um homem me fazendo perguntas óbvias para tentar provar que eu não sabia o que estava fazendo”, conta Bárbara Fonseca, cervejeira da Catimba e da Trilha. Mesmo não sendo uma história tão comum hoje, muitas pessoas ainda ficam muito surpresas com o fato dela ser uma mulher por trás das produção. “Acho que é uma construção cultural naturalizar o homem nesse lugar e estamos quebrando isso”, afirma.

Enquanto consumidora, Bárbara ainda vê mais preconceito, especialmente na hora de lidar com pessoas de “fora” do mercado cervejeiro. “Com bastante frequência escuto “cerveja de mulher, mais docinha” quando peço para me falarem das cervejas em um bar ou restaurante. Eu gosto das cervejas ácidas e das amargas, sabe! Acredito que temos um caminho bem longo para desconstruir esses padrões pré-estabelecidos dentro do mercado de hospedagem e serviço, mais do que dentro das fábricas”, conclui.

As cervejas artesanais

Por mais que evoluam, as cervejas artesanais ainda têm um longo caminho para percorrer. Bárbara Fonseca acredita que ainda têm muitas aspas antes de falar em popularização, até por que é preciso mudar a relação com a cerveja.

“No Brasil temos o hábito de sentar no boteco e tomar cerveja por horas; com cervejas mais encorpadas, mais alcoólicas e com sabores mais complexos, fica difícil tomar grandes quantidades. Claro que existem centenas de estilos e muitos deles são leves e super fáceis de beber o dia todo, mas a ideia não é essa. Acredito que essa “popularização” está fazendo com que as pessoas se preocupem mais com a qualidade do que estão bebendo”, explica.Fernanda Ueno vai na mesma linha: “o consumo das artesanais têm um papel muito importante na educação do consumidor, no sentido de conhecer melhor sobre ingredientes, famílias, estilos, além de contribuírem para um consumo mais consciente que preza mais o cuidado na produção, qualidade de matérias primas e a relação mais próxima do consumidor com as cervejarias”.

A grande variedade de estilos e ingredientes também desperta muita curiosidade e gera novas experiências para as pessoas. O mercado hoje tem opções de cervejas pra todos os gostos, cervejas mais ácidas, amargas, leves, refrescantes, alcoólicas, sem glúten, sem álcool, com frutas e com os mais diversos ingredientes.

Mão na massa

Hoje existem muitos meios para aprender a fazer sua própria cerveja. Há uma variedade imensa de institutos que dão cursos de especialização na área para quem quer atuar profissionalmente ou apenas conhecer melhor o processo de produção, cursos com cervejeiras(os) para aprender a fazer sua cerveja em casa, além de material online e livros.

Não existe lugar melhor ou pior, mas há de se levar em conta que os ambientes de escolas cervejeiras e a maioria dos cursos que oferecem no mercado são quase que exclusivamente procurados e administrados por homens, o que talvez deixe algumas mulheres mais desconfortáveis.

“Há um ano atrás resolvi dar um curso básico só para mulheres para que elas pudessem fazer sua própria cerveja, em casa, por sentir essa hostilidade dentro desses ambientes. Foi uma experiência bem legal onde tivemos uma troca genuína de conhecimento e de experiências com o machismo cervejeiro e de boas oportunidades também. Acredito muito na força de mulheres juntas e acho que o caminho para termos um mercado mais igualitário depende bastante da nossa união, tanto como profissionais da área, quanto como consumidoras”, relata Bárbara.

Fernanda também aconselha procurar um estágio em cervejaria ou trabalhar em bares de cervejas. “Isso pode ajudar a conhecer melhor o mercado, direcionar em que área especificamente se deseja atuar e uma experiência como essa pode abrir novas portas para a carreira”.

As mulheres da cerveja no Brasil

Fernanda e Barbara compõe esta fatia de especialistas que atuam em diferentes ramos, contribuindo potencialmente para o mercado. Elas mostram como suas histórias vêm quebrando tabus – desde as tenebrosas campanhas publicitárias, antes direcionadas ao público masculino, até o clichê dos sabores leves ou adocicadas.

Aqui vai uma seleção de mulheres que, além de entenderem muito da bebida, são donas de paladares maduros e abertos a novidades e desenvolvem-se como profissionais criativas, estudiosas e super plugadas.

Luana Cloper

No comando da Brasil Brau e do Mondial de la Bière, a sommelière formada pelo Instituto Cerveja Brasil e pós-graduada em Comunicação pela ESPM-RJ está há 12 anos no mercado de eventos e é a definição do empoderamento feminino no mundo das cervejas. “Ocupar cargo de liderança no Brasil, sendo mulher, é um desafio que ainda vivemos em qualquer área”, diz. “No segmento cervejeiro o desafio é ainda maior, pois é um mercado ainda bem masculino.” O profissionalismo e a seriedade de Luana podem ser traduzidos em números: a Brasil Brau deste ano, que acontece em São Paulo de 28 a 30 de maio, deve receber em torno de 8 mil visitantes que terão acesso às novidades das mais de 100 marcas.

Bárbara Fonseca

Ela começou a se interessar pela produção ao ver alguns amigos produzindo dentro de casa, há mais ou menos 4 anos atrás. Com eles ela aprendeu a fazer cerveja e se apaixonou pelos processos de fabricação e pelas variedades da bebida. “Hoje eu posso dizer que vivo de cerveja!”. Ela é sócia da cervejaria Catimba e cervejeira da Trilha.

Gabriela Kishimoto

Engenheira de Alimentos, cervejeira da ZalaZ e feminista. Já passou pela Dádiva e hoje é cervejeira da ZalaZ, que completa 4 anos em Minas Gerais. Gabriela se formou em engenharia de alimentos e, no último ano de faculdade, foi estudar na Alemanha. “Aproveitei que estava no país referência na produção de cerveja pra aprender mais sobre o assunto”, diz. Ela ficou fazendo matérias relacionadas com a produção de cerveja por 6 meses, depois conseguiu um estágio de aprendiz de cervejeira na Berliner Berg, cervejaria berlinense pioneira na cena craft da capital alemã. “Como o brewpub ficava em Berlin e a produção em larga escala era feita em uma fábrica na região do Hallertau, pude vivenciar os dois polos cervejeiros alemãs: a cena craft de Berlin e a tradicional da Bavaria”, conta. De volta ao Brasil, ela cursou tecnologia cervejeira no ICB. Lá conheceu a Dádiva, onde ficou como cervejeira por 2 anos. Desde Abril de 2019, Gabriela é cervejeira na ZalaZ..

Luiza Lugli Tolosa

Administradora, empreendedora e beer sommelier, Luiza Lugli Tolosa representa bem a nova geração no que se refere à mudança de perfil no consumo de cervejas e também na produção. Proprietária da Cervejaria Dávida, de Várzea Paulista, comercializa seus rótulos tanto para restaurantes e bares quanto para empórios e mercados menores. A jovem busca sempre apresentar lançamentos de qualidade para atender ao público que tem interesse em novas experiências. Hoje a Dádiva é a marca brasileira que mais faz cervejas colaborativas internacionais, em uma iniciativa que busca estreitar o relacionamento com o mercado mundial. Já foram lançados rótulos participativos com cervejarias da Bélgica, Espanha, Estados Unidos, Holanda, Suécia e Itália, entre outros.

Priscilla Colares

Sommelière de cervejas, professora e coordenadora do Instituto da Cerveja Brasil (ICB), trabalha com serviços de sommelieria e com consultoria de marketing para cervejarias, distribuidoras e empresas no ramo de cerveja artesanal.

Fernanda Ueno

Engenheira de Alimentos (UFSC), sommelière de cervejas (ABS) e cervejeira (UCDavis), Fernanda esteve à frente da famosa Cervejaria Colorado, uma das pioneiras na fabricação de cervejas artesanais no país. A jovem ainda é sócia e cervejeira da Japas Cervejaria, cigana formada por quatro mulheres que acaba de inaugurar sua operação nos Estados Unidos. Os rótulos serão produzidos de forma terceirizada em uma cervejaria de Nova York e comercializados inicialmente nos estados de Massachussets, Maine e Rhode Island.

Marina Pascholati

Apaixonada por água, malte, lúpulo e levedura. Engenheira agrônoma formada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), técnica em alimentos pelo Instituto Federal do Sul de Minas Gerais (IFSULMINAS) e sommelière de cervejas pelo Instituto da Cerveja Brasil (ICB). Possui experiência de mais de três anos e meio em cervejarias, tendo atuado principalmente na área de produção e também em controle de qualidade. Atualmente é cervejeira na Goose Island, em São Paulo.

Taiga Cazarine Taiga é juíza internacional de concursos de cerveja e já participou de decisões em competições no Canadá, Costa Rica, Panamá e Brasil. Desde que se encantou pelo universo cervejeiro, foi tornando sua qualificação cada vez mais completa e diversificada. Já foi dona de loja de cervejas artesanais, formou-se sommelière e foi guia de turismo cervejeiro. Como jornalista especializada, colaborou por 2 anos com um programa da CBN de Ribeirão Preto sobre cerveja. Cursou administração em negócios da cerveja na FGV e tem sido Beer Huntress da Beer.com.br (do gupo Wine), selecionando rótulos para os assinantes.

Luana Hoffmann

Luana nasceu em Santa Teresa, no Espirito Santo, e por lá mesmo abriu a Cervejaria Teresense. Depois de estudar Engenharia de Produção no Rio, ela se apaixonou pelo mundo das cervejas artesanais e resolveu investir na área. Cervejeira, ela é responsável técnica da Teresense.

Kátia Jorge Com 33 anos de experiência profissional, Kátia atua como química na produção de cervejas e realiza pesquisa cervejeira, degustação e consultoria para empresas líderes de fabricação e fornecedores da indústria. Ela trabalhou como pesquisadora para Brahma e Devassa no Brasil e VLB-Berlin, na Alemanha. Kátia também faz parte do júri de provadores de cerveja profissionais em algumas das maiores competições brasileiras e internacionais.

Fernanda Fregonesi

Biomédica habilitada para microbiologia, especialista em Brewing microbiology pelo Siebel Institute (EUA) e mestra em Biotecnologia Agroindustrial pela Universidade Positivo. É Evil mind pelo Yeast Facts desde 2013, onde ministra aulas para homebrewers e é responsável pela implementação de controle de qualidade em cervejarias.

Lila Mendes

É homebrewer, professora de Gastronomia do SENAC-CE, historiadora pela UFC, cozinheira e confeiteir a formada pelo SENAC-CE, sommelière de cervejas formada pelo SENAC-CE e participante do curso de Tecnologia em Processos Cervejeiros pelo Science of Beer.

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